Muitos caminhantes já ficaram parados na beira de um rio sem saber como seguir adiante.
Este problema aparece mais do que pensamos nas trilhas de lugares distantes. Cruzar para o outro lado de um rio pode ser difícil e, sem o cuidado certo, até mesmo perigoso.
Neste artigo, vamos falar sobre os melhores jeitos de atravessar rios com segurança quando você estiver longe da cidade, explorando a natureza.
Por que saber atravessar rios é importante?
Antes de mais nada, é bom entender por que esse conhecimento é tão valioso. Em muitas trilhas remotas, como as do Parque Nacional da Serra da Canastra ou da Chapada dos Veadeiros, você vai encontrar rios que cortam seu caminho. Às vezes, não há pontes por perto e você precisa atravessar por conta própria.
Em janeiro de 2022, uma forte chuva na região da Serra do Mar causou a queda de uma ponte simples de madeira, deixando um grupo de 12 caminhantes presos do outro lado de um rio por quase 5 horas.
Por sorte, eles tinham comida e água suficientes para esperar ajuda. Isso mostra como estar preparado pode fazer toda a diferença.
Saber atravessar rios não é só uma questão de continuar sua caminhada, mas também de segurança. A cada ano, cerca de 10% dos acidentes em trilhas no Brasil têm relação com tentativas mal sucedidas de atravessar rios, segundo dados do Corpo de Bombeiros.
Antes da Travessia
Antes de tentar atravessar um rio, você precisa encontrar o melhor lugar. Isso pode economizar muito esforço e diminuir os riscos. Olhe ao redor e procure por estas características:
- Áreas onde o rio é mais largo e raso (geralmente a água corre mais devagar nesses pontos)
- Trechos com pedras grandes que podem servir como apoio
- Lugares onde a correnteza parece mais fraca
- Pontos onde o rio se divide em vários braços menores
Evite tentar atravessar perto de cachoeiras ou corredeiras. A apenas 100 metros acima ou abaixo desses pontos, o rio geralmente é mais calmo e seguro para travessia.
Avalie as condições do rio
Não se engane pela aparência do rio. Às vezes, ele pode parecer tranquilo na superfície, mas ter uma correnteza forte embaixo. Para ter uma ideia melhor, jogue um graveto na água e veja com que velocidade ele se move.
Se a água estiver turva ou barrenta, tenha mais cuidado. Isso pode significar que o rio está cheio por causa de chuvas recentes. Nessas condições, a força da água pode ser 5 vezes maior que o normal, mesmo se o nível tiver subido apenas 15 centímetros.
A temperatura da água também é importante. No Parque Nacional de Itatiaia, por exemplo, alguns riachos têm água a 8°C mesmo no verão. Uma imersão prolongada nessa temperatura pode causar hipotermia em menos de 30 minutos.
Técnicas básicas de travessia
Esta é uma das técnicas mais simples e úteis. Você vai precisar de um bastão forte, como aqueles de caminhada ou um galho resistente de cerca de 1,5 metro de comprimento.
Segure o bastão com as duas mãos na sua frente, apoiando-o no fundo do rio. O bastão deve ficar do lado que a água vem (a montante), assim ele ajuda a quebrar a força da correnteza. Dê passos curtos e firmes, sempre mantendo dois pontos de apoio: seus pés e o bastão.
O livro “Técnicas de Sobrevivência na Natureza”, do especialista Moacyr Pires, explica que um bom bastão pode aumentar sua estabilidade em até 60% durante a travessia.
Método dos três pontos de contato
Esta técnica é boa para rios com muitas pedras. A ideia é sempre manter três pontos de apoio enquanto você se move:
- Comece com os dois pés e uma mão apoiados
- Mova apenas um membro de cada vez
- Teste cada apoio antes de colocar seu peso nele
Imagine que você está atravessando como um caranguejo – lento, mas seguro. A velocidade ideal para esse método é de aproximadamente 1 metro a cada 10 segundos, dando tempo para testar cada apoio.
Travessia em grupo (formação triangular)
Quando você estiver em um grupo de três ou mais pessoas, podem formar uma formação triangular ou em “V” para atravessar juntos. A pessoa mais forte e experiente fica na frente, quebrando a força da água para os outros.
No Parque Nacional do Caparaó, guias locais como José Antônio da Silva usam essa técnica para grupos há mais de 25 anos, sem nenhum acidente registrado. Eles ensinam os visitantes a se posicionarem em um ângulo de aproximadamente 45 graus em relação à correnteza, com os braços entrelaçados nos ombros uns dos outros.
Equipamentos que ajudam na travessia
Nunca tente atravessar rios descalço. Pedras afiadas, galhos submersos e até mesmo lixo podem machucar seus pés. Use tênis fechados que sequem rápido ou sandálias específicas para trilhas, como as da marca Keen ou Merrell, que custam entre R$200 e R$500.
Evite botas pesadas que podem encher de água e dificultar seus movimentos. Se estiver usando meias, prefira as de materiais sintéticos como poliéster, que secam mais rápido que o algodão.
Mochilas e proteção para equipamentos
Antes de entrar na água, prepare sua mochila. Coloque tudo que não pode molhar (celular, documentos, comida) em sacos plásticos ou em embalagens à prova d’água. Existem bolsas secas (dry bags) que custam a partir de R$50 e são perfeitas para isso.
Se a água estiver na altura da cintura ou acima, solte a cinta da barriga da sua mochila. Assim, se você cair, pode se livrar dela rapidamente e não será puxado para baixo.
Uma dica do livro “Trilhas e Travessias do Brasil” é levar sempre uma corda leve de 10 metros em sua mochila. Ela pesa apenas 300 gramas e pode ser muito útil para travessias mais difíceis.
Técnicas avançadas para rios mais desafiadores
Para rios mais largos ou com correnteza forte, o uso de uma corda pode ser a melhor opção. Esta técnica requer pelo menos duas pessoas:
- A pessoa mais forte atravessa primeiro, levando uma ponta da corda
- Ela amarra a corda em algo firme do outro lado (árvore, pedra grande)
- Os outros usam a corda como apoio para atravessar
Na Trilha do Rio do Boi, no Cânion Itaimbezinho (SC), os guias instalam cordas temporárias que ajudam os visitantes a atravessar trechos onde a água bate na cintura e a velocidade chega a 8 km/h em dias normais.
Travessia com mochila flutuante
Se você precisar atravessar um rio mais fundo, onde terá que nadar, sua mochila pode virar um problema. Uma técnica útil é transformá-la em um flutuador:
- Forre o interior da mochila com sacos plásticos resistentes
- Coloque ar dentro dos sacos e feche bem
- Amarre a mochila em uma corda que você possa segurar
- Use a mochila como apoio para flutuar enquanto atravessa
Esta técnica foi usada por Pedro Menezes durante sua travessia do Vale do Pati, na Chapada Diamantina, quando precisou atravessar o Rio Preto após uma chuva forte em março de 2020. “A mochila flutuante me salvou de perder todo meu equipamento”, conta em seu blog de viagens.
O que fazer em situações de emergência
Mesmo tomando todos os cuidados, acidentes podem acontecer. Se você for levado pela água:
- Não lute contra a correnteza diretamente
- Posicione-se de costas, com os pés para frente e a cabeça para trás
- Use seus pés para se proteger de obstáculos
- Tente se mover diagonalmente em direção à margem
Esta posição, chamada de “posição defensiva”, reduz o risco de bater a cabeça em pedras e permite que seus pés absorvam os impactos. Segundo o manual de resgate aquático do Corpo de Bombeiros, esta técnica aumenta em 70% suas chances de sair da água sem ferimentos graves.
Hipotermia e primeiros socorros
A água fria é perigosa mesmo em dias quentes. Se alguém do seu grupo apresentar sinais de hipotermia (tremores, fala arrastada, confusão):
- Tire a pessoa da água e remova roupas molhadas
- Envolva-a em roupas secas e cobertores
- Ofereça bebidas quentes se a pessoa estiver consciente
- Não aplique calor direto (como bolsas de água quente)
Em um caso ocorrido na Serra da Mantiqueira em julho de 2021, um caminhante desenvolveu hipotermia após cair em um rio com temperatura de 5°C. Seus amigos o aqueceram usando as técnicas acima e conseguiram mantê-lo estável até a chegada do resgate, 2 horas depois.
Impacto ambiental e ética na travessia
Ao atravessar rios, lembre-se que você está em um ambiente natural que deve ser preservado:
- Evite pisar em plantas aquáticas
- Não mova pedras grandes que podem ser habitat de animais
- Nunca deixe lixo, nem mesmo orgânico
- Não use sabão ou produtos químicos perto da água
Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais mostrou que áreas de travessia de rios em trilhas populares podem ter até 40% menos vida aquática devido ao pisoteio constante e poluição.
Seja Sempre Prudente
Atravessar rios em trilhas remotas é uma habilidade que combina conhecimento, técnica e respeito pela natureza. Com as informações que conversamos aqui, você já tem uma boa base para fazer isso com mais segurança.
saiba que a melhor travessia é aquela feita com calma e bom senso. Às vezes, a decisão mais sábia é não atravessar e procurar outro caminho ou esperar condições melhores. Como diz o velho ditado entre caminhantes: “A montanha estará lá amanhã, mas você só tem uma vida.”
Antes de sua próxima aventura, pratique algumas dessas técnicas em ambientes controlados. Você pode começar em riachos rasos e calmos antes de enfrentar desafios maiores.
Com o tempo e a prática, atravessar rios se tornará uma parte natural e até prazerosa de suas caminhadas em trilhas remotas.