Planta da Coca: História, Usos e Controvérsias

Planta da Coca sobe A Luz do Dia

A Erythroxylum coca é uma planta nativa da América do Sul e acompanha os povos andinos há milhares de anos. Durante esse longo período, ela foi usada em rituais, em práticas tradicionais e em atividades do dia a dia.

Ao mesmo tempo, no mundo moderno, seu nome aparece com frequência em debates sobre drogas e segurança pública, o que cria uma imagem marcada por contrastes.

O que é a Planta Coca

A planta da coca faz parte de uma família chamada Erythroxylaceae. Ela nasce nas montanhas dos Andes e cresce como um arbusto pequeno. Geralmente, ela chega de 1 a 2,5 metros de altura. Suas folhas são verdes e escuras. Além disso, são ovais e têm um cheiro bem suave. Suas flores são brancas e pequenas. Depois delas, aparecem frutos vermelhos, mais ou menos do tamanho de uma azeitona.

Existem duas espécies principais: Erythroxylum coca e Erythroxylum novogranatense. Cada uma delas tem duas variedades. Ou seja, no total, existem quatro tipos de planta coca que as pessoas cultivam.

De acordo com estudos, todas essas quatro variedades vieram de uma espécie selvagem chamada Erythroxylum gracilipes. Isso aconteceu há muito tempo, quando vários grupos indígenas da América do Sul começaram a plantar a coca de forma constante.

Onde a Planta Cresce Melhor

A coca Geralmente é Encontrada em Yungas

A planta da coca gosta muito de clima quente e úmido. Por isso, ela cresce melhor nas regiões de selva alta dos Andes, chamadas de Yungas. Essas áreas ficam entre 500 e 2.000 metros acima do nível do mar. Assim, o ambiente alto, quente e sempre úmido funciona como um “lar perfeito” para a planta.

Além disso, o cultivo costuma ser feito de forma manual. Ou seja, quase tudo é feito com as mãos, desde o plantio até a retirada das folhas. A colheita pode acontecer de três a seis vezes por ano, dependendo do clima e da região. Quanto mais estável for o clima, maior é a chance de ter mais colheitas ao longo do ano.

História Antiga: A Folha Sagrada

Os povos que viveram antes da chegada dos europeus tratavam a coca como um presente divino, e os Incas reforçaram ainda mais essa ideia. Em quechua, ela recebe o nome de “mama coca”, que significa “mãe coca”.

Em aymara, outro idioma indígena, é chamada de “Kkoka”, que quer dizer “planta divina”. Esses nomes mostram como as comunidades antigas colocaram carinho, respeito e valor espiritual nessa folha que fez parte do dia a dia delas por séculos.

Durante o Império Inca, a planta da coca tinha tanto valor que apenas a elite podia usá-la. Portanto, só reis, sacerdotes e altos funcionários tinham permissão para consumir as folhas. Esse controle rígido mostra como ela era vista quase como um “tesouro verde”.

A Coca no Império Inca

Os Incas colocaram a coca no centro da vida deles. Ela fazia parte do trabalho diário, das práticas religiosas e até do comércio. Por isso, eles chegaram a conquistar novas terras somente para plantar mais coca. Era como se a planta fosse um “pilar” que sustentava a vida e cultura deles.

Na visão andina, a coca não é só uma planta qualquer. Ela é um ser espiritual feminino, chamado Mamacoca ou Cocamama. Segundo as crenças, esse espírito pode ensinar curandeiros e também funcionar como uma ponte entre os humanos e outros seres espirituais.

Depois da Chegada dos Espanhóis

Quando os espanhóis chegaram à região, eles tentaram proibir o uso da coca, já que a viam como algo ligado a práticas pagãs. No entanto, isso mudou rápido. Logo perceberam que a coca ajudava os trabalhadores indígenas escravizados a aguentar longas horas nas minas de prata. Dessa forma, os colonizadores passaram a permitir e até incentivar o uso da planta.

Essa mudança marcou o início de uma longa história de confusões e erros sobre o verdadeiro papel da coca na cultura andina.

Para Que Serve a Planta Coca: Benefícios

Ao contrário do que muita gente pensa, a planta da coca tem muitos benefícios quando usada naturalmente. Aliás, pesquisas científicas modernas confirmam o que os povos andinos já sabiam há milhares de anos.

O Que Tem na Folha da Coca

A folha da coca é muito nutritiva. Ela tem:

  • Carboidratos: dão energia
  • Proteína vegetal: ajuda na formação dos músculos
  • Fibra: mais de 50% das folhas são fibra, o que é ótimo para a digestão
  • Vitaminas: principalmente caroteno (vitamina A), riboflavina (vitamina B2) e tiamina (vitamina B1)
  • Minerais: cálcio, fósforo e ferro em boa quantidade

Além disso, as folhas têm açúcares naturais como sacarose, glicose e frutose. Também têm muitos antioxidantes.

Benefícios Para a Saúde

Andino Segurando Folhas da Planta da Coca

A planta da coca é usada tradicionalmente para várias coisas:

  • Contra o mal de altitude: Um dos usos mais conhecidos é aliviar o “soroche”, que é aquele mal-estar que dá em lugares altos. O chá de coca ajuda a aumentar o oxigênio no sangue. Assim, a pessoa se adapta melhor ao ar rarefeito das montanhas.
  • Dá energia natural: As folhas ajudam no desempenho físico. Também diminuem a fome por um tempo e dão sensação de bem-estar. Isso acontece quando a coca é usada em suas formas tradicionais, como chá ou mambe (mistura de folha de coca com cinzas).
  • Ajuda a digestão: Os componentes das folhas ajudam no processo digestivo. Além disso, reduzem problemas de estômago que são comuns em lugares altos.
  • Combate radicais livres: Pesquisas mostram que as folhas têm muitos polifenóis e flavonoides. Essas substâncias combatem os radicais livres, que causam envelhecimento e doenças. Compostos como kaempferol, quercetina e eriodictyol foram encontrados nas folhas.

Como os Povos Andinos Usam a Coca

Os povos andinos criaram formas especiais de usar a folha da coca:

  • Acullico ou Chacchar: É o costume de mascar folhas de coca. Geralmente, elas são misturadas com substâncias alcalinas (llipta) feitas de cinzas de plantas. As folhas ficam na bochecha, ficam molhadas pela saliva e são pressionadas de leve. Assim, elas liberam seus nutrientes.
  • Chá de Coca: É uma infusão feita com folhas secas. É muito consumida em países andinos. Aliás, hotéis e restaurantes oferecem este chá como remédio natural contra o mal de altitude.
  • Mambe: É uma preparação tradicional da Amazônia. Folhas secas são misturadas com cinzas vegetais, criando um pó que é consumido durante rituais e no dia a dia.

Planta da Coca no Brasil: A Lei e os Problemas

Lei Brasileira sobre o Plantio de Coca

A situação legal da planta da coca no Brasil é muito diferente da situação em países vizinhos. Peru, Bolívia e Colômbia permitem o cultivo e uso tradicional em certos casos.

A Lei Brasileira é Rígida

No Brasil, a lei proíbe totalmente o cultivo da coca. A Lei nº 11.343/2006 e a Portaria nº 344/1998 da ANVISA proíbem plantar a folha da coca. O Brasil segue a Convenção Única sobre Entorpecentes de 1961, um acordo internacional.

A ANVISA classifica a folha da coca como uma planta proibida que pode originar drogas. Porém, ela não é considerada droga em si mesma. Essa diferença cria confusão na lei.

Punições Severas

As autoridades brasileiras tratam o cultivo, o transporte e a venda da folha de coca com total rigor. Quando alguém cultiva a planta, a polícia pode enquadrar essa pessoa por tráfico de drogas, o que leva a penas que vão de cinco a quinze anos de prisão, além de multa.

Se alguém atravessa a fronteira com pequenas quantidades de coca compradas em países vizinhos, a fiscalização pode classificar essa atitude como tráfico internacional de drogas. Nesse cenário, a consequência costuma ser dura e imediata.

Conflitos Culturais e Jurídicos

Especialistas em direito levantam várias contradições na lei brasileira. Eles defendem que, quando a coca é usada de forma tradicional, a prática não deveria ser tratada como crime. Segundo esses profissionais, a folha, do jeito que aparece nas cerimônias antigas, não funciona como matéria-prima para drogas.

O Brasil já reconheceu o uso ritual de outras substâncias, como a ayahuasca, por meio da Resolução nº 01/2010 do CONAD. Essa decisão abre espaço para um possível reconhecimento cultural da coca, especialmente para imigrantes andinos que vivem no país e mantêm tradições de seus povos.

O Mercado Legal em Outros Países

Folha da Coca Vista de Perto

Apesar das proibições em vários países, existe um mercado legal crescente de produtos da coca. Principalmente no Peru e na Bolívia. Esses países criaram indústrias que aproveitam os benefícios da planta. Assim, oferecem alternativas econômicas para agricultores tradicionais.

Produtos à Venda

Nos países onde é permitido, existem vários produtos legais de coca:

  • Chás e infusões: Vendidos em saquinhos, igual ao chá comum
  • Farinha de coca: Usada para fazer pães e na alimentação
  • Cosméticos: Cremes, xampus e produtos de beleza com extratos de coca
  • Suplementos: Cápsulas e pós que aproveitam o valor nutritivo das folhas
  • Bebidas energéticas: Alternativas naturais aos energéticos industriais

É importante destacar que todos esses produtos passam por processos que garantem a ausência de cocaína. Ou seja, eles reduzem o alcaloide a níveis tão baixos que não aparecem em testes. Portanto, são seguros para consumo.

Pesquisas e Novos Produtos

Pesquisadores estão estudando maneiras de criar produtos que usem os benefícios da planta coca para que serve sem as propriedades viciantes da cocaína. Estudos recentes focam em:

  • Separar componentes específicos com benefícios terapêuticos
  • Criar analgésicos naturais
  • Tratamentos para o mal de altitude baseados em extratos padronizados
  • Suplementos para atletas de alta performance
  • Usos em medicina natural

Na Índia, por exemplo, cientistas criaram uma fórmula homeopática chamada DIP-3. Ela usa extrato alcoólico das folhas de Erythroxylum coca e mostrou eficácia na prevenção de sintomas do mal de altitude.

O Mercado Ilegal: Números Alarmantes da Cocaína

Infelizmente, a planta da coca também deu origem a um dos mercados ilegais mais lucrativos e destrutivos do mundo. Portanto, é importante entender a dimensão desse problema.

Produção Mundial Está Batendo Recordes

De acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas 2025 do UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), a produção de cocaína atingiu números históricos. Em 2023, foram produzidas 3.708 toneladas de cocaína no mundo. Isso representa um aumento de 34% em relação a 2022.

Para se ter uma ideia, em 2014, a produção era de cerca de 1.000 toneladas. Ou seja, em menos de 10 anos, a produção mais que triplicou. Além disso, em 2022, a produção já havia batido recorde com 2.757 toneladas.

Lucros Bilionários do Tráfico

O tráfico de drogas ilícitas gera centenas de bilhões de dólares por ano. Segundo estimativas:

  • O mercado global de drogas ilícitas movimentou entre US$ 426 e US$ 652 bilhões apenas em 2014
  • O tráfico de cocaína rendeu cerca de US$ 84 bilhões em 2009
  • No Brasil, o tráfico de cocaína movimentou US$ 65,7 bilhões em 2024

Para comparar, esse valor é quase 1% do comércio global total. Além disso, apenas uma pequena parte desse dinheiro fica nos países produtores. A maior parte dos lucros vai para a América do Norte (US$ 35 bilhões) e Europa Ocidental (US$ 26 bilhões).

Preços Absurdos no Mercado Ilegal

Os preços da cocaína variam muito dependendo da região:

  • Na Bélgica: O quilo custa cerca de 35.000 euros (aproximadamente R$ 187.000)
  • Na China: O valor sobe para 150.000 dólares (aproximadamente R$ 738.000)
  • Na Austrália: O preço alcança 250.000 dólares (cerca de R$ 1,2 milhão por quilo)

Essa valorização enorme acontece pela dificuldade da logística em cada região. Enquanto isso, nas regiões produtoras, o quilo vale muito menos.

O Consumo Está Aumentando

O número de usuários de cocaína cresceu de 17 milhões em 2013 para 25 milhões em 2023. Isso representa um aumento de 47%. Além disso, as apreensões globais de cocaína atingiram um recorde de 2.275 toneladas, um aumento de 68% no período 2019-2023.

Violência e Corrupção

O aumento na produção e tráfico de cocaína coincidiu com o crescimento da violência. Principalmente em países como Equador e nas Caraíbas. Entre 2019 e 2022, o número de apreensões de cocaína e a taxa de homicídios no Equador aumentaram cinco vezes.

Além disso, o tráfico de cocaína está se espalhando para novas regiões. A África se consolidou, desde 2019, como corredor para a exportação da droga para a Europa. Países da Ásia também estão sendo penetrados por redes de tráfico.

Métodos Cada Vez Mais Sofisticados

As organizações criminosas estão constantemente inovando. Elas usam:

  • Submarinos: Navios submarinos “fantasmas” transportam toneladas de cocaína
  • Aviões: Aeronaves privadas são cada vez mais usadas
  • Navios de carga: Contêineres escondidos em cascos de navios levam a droga para a Europa
  • Correios: Empresas de entrega tradicionais são usadas para pequenas quantidades
  • Tecnologia: Darknet e comunicações criptografadas facilitam o tráfico

O Impacto no Brasil

No Brasil, o mercado de cocaína é estimado em 100 toneladas por ano. Além disso, estudos mostram que o país se tornou um importante centro de refino da droga. Em 2022, foram identificados pelo menos 550 laboratórios clandestinos de cocaína no Brasil.

Porém, pesquisadores estimam que existam pelo menos 5.000 laboratórios ativos no país. Goiás lidera com 125 laboratórios identificados, seguido pelo Amazonas com 42.

O refino da cocaína no Brasil pode ter rendido até R$ 30 bilhões extras em lucros para as facções criminosas. Além disso, o tráfico de cocaína no Brasil movimentou aproximadamente R$ 15 bilhões em 2022.

Lavagem de Dinheiro

Criminosos, especialmente grandes organizações do tráfico, movimentaram cerca de US$ 1,6 trilhão em 2009, usando esquemas para lavar esse dinheiro sujo. Esse valor corresponde a 2,7% de todo o PIB global. Mesmo assim, os órgãos de fiscalização conseguem apreender e congelar menos de 1% desses fluxos ilícitos, o que mostra o tamanho da luta contra esse tipo de crime.

A América do Norte e a Europa concentram a maior parte dessas operações de lavagem. Nessas regiões, grupos criminosos limparam aproximadamente dois terços dos US$ 84 bilhões produzidos pelo comércio de cocaína em 2009. Essa rota financeira corre como um rio subterrâneo, difícil de rastrear e ainda mais difícil de bloquear.

Um Problema Sem Solução Fácil

O mercado ilegal de cocaína mostra-se altamente resiliente. As organizações criminosas se adaptam rapidamente a pressões policiais e mudanças na oferta e demanda. Além disso, a interconectividade entre grupos cria redes complexas que dificultam a desarticulação total do tráfico.

Segundo o UNODC, os grupos criminosos continuam a explorar crises globais e mirar em populações vulneráveis. Portanto, é urgente investir em prevenção, tratamento baseado em evidências e alternativas econômicas para populações vulneráveis.

Um Lembrete Importante

Falar sobre a planta da coca é entender história, cultura e lei, mas não dá para fingir que o lado perigoso não existe. O uso de drogas pode virar uma armadilha silenciosa, que começa pequena e depois toma conta da vida como uma sombra grudada no calcanhar. Por isso, evite o envolvimento com qualquer substância ou planta proibida no seu país.

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